Introdução

Após o parto, o bebê não terminou de nascer. Na verdade, o parto é um momento de grande êxtase que revela a fragilidade humana e lança o filhote e sua família em um novo processo de constituição do sujeito humano.

Para que o bebê continue a se desenvolver, ele precisa de cuidados específicos fora do útero para que os aspectos orgânicos e a constituição psíquica se enredem. O projeto Palavras para o nascer — do parto ao mundo direciona e sensibiliza o nosso olhar para o entorno que acolhe e forma os bebês após o parto.

A partir de registros fotográficos e informações teóricas, conheceremos alguns desses processos constitutivos e de acolhimento dos bebês. São imagens delicadas e expressivas que retratam o nascimento do sujeito.

E que nos ajudam a compreender a força e a imprescindível importância das palavras —faladas ou silenciadas, pensadas ou sonhadas — que permeiam os toques, os gestos, os olhares, os sons, os cheiros e os ritmos dos laços que se criam entres pais e filhos neste longo processo de constituição do ser humano.



O PROJETO

O projeto Palavras para o nascer — do parto ao mundo direciona e sensibiliza nosso olhar para o entorno que acolhe e forma os bebês após o parto. A partir de registros fotográficos e recortes teóricos, reconhecemos a importância dos processos de acolhimento dos bebês em nosso mundo. São imagens delicadas e expressivas que retratam o nascimento e os primeiros momentos de desenvolvimento fora do útero. E que nos ajudam a compreender a força e a imprescindível importância das palavras — faladas ou silenciadas, pensadas ou sonhadas — que permeiam os toques, os gestos, os olhares, os sons, os cheiros e os ritmos dos laços que se criam entre pais e filhos neste longo processo de constituição do filhote humano.

A proposta inicial deste projeto era realizar uma exposição e uma série de palestras a partir do registro fotográfico dos detalhes simbólicos e físicos do encontro do recém-nascido com o seu entorno. Mas nos deparamos com a pandemia do covid-19 bem no início do projeto e por conta do distanciamento social percebemos que teríamos que mudar a maneira de realizar e expor o nosso trabalho.

Decidimos então criar um site em vez da exposição física, mas mantivemos o formato, buscando ao máximo aproximar os visitantes da nossa proposta inicial. Seguimos com os recortes teóricos, porém, impossibilitadas de fazer novos registros ou gravar depoimentos com famílias, decidimos recorrer ao acervo da fotógrafa e selecionamos imagens que se conciliam com o projeto.

Para complementar e sensibilizar as famílias, criamos um workshop online chamado “mãegrafia”. Esta oficina prática foi realizada entre 11 de setembro e 9 de outubro de 2020, foi direcionada a mães de bebês com até 9 meses e teve como inspiração a técnica fotográfica denominada “almografia”.

A almografia fotografa um sentimento expresso pelo olhar, algo dito sem palavras, na busca de registrar o que nos emociona. Ela faz um jogo de palavras com a fotografia e permite o desenho com a alma, com o invisível. Assim, este workshop fotográfico teve como objetivo favorecer e registrar o elo mãe-bebê por meio da captura de um “estado de presença”. Este vínculo é invisível e precisa de representações por onde ele possa ser expresso ou se mostrar presente. Assim, a fotografia foi o meio escolhido para marcar, registrar ou desenhar essa luz afetiva.

Em vez de palestras, fizemos três lives pela plataforma Instagram. Elas alcançaram diversas mulheres, famílias e profissionais da área.

Este projeto é uma continuação do projeto fotográfico vencedor do prêmio Nelson Seixas 2019 O poder do nascer — a história do nascimento é feminina”, realizado por Nathalie Gingold. A exposição O poder do nascer se debruçou sobre o poder feminino de dar à luz e sobre o universo das gestantes e do parto. Por meio da fotografia, ela compunha o registro das histórias maternas.

Agora, em 2020, damos continuidade a esse projeto dirigindo o nosso foco ao bebê e ao entorno que o recebe e acolhe. Daí o título Palavras para nascer — do parto ao mundo.

As Autoras

Cláudia foi professora de Nathalie na faculdade por um breve período. Mas após esse primeiro encontro, as duas apenas mantiveram contatos esporádicos por amigos em comum.

Mas ao visitar a exposição “O poder do nascer” com fotos feitas por Nathalie, Cláudia se encantou com o trabalho da fotógrafa. Logo em seguida a convidou para participar do grupo “A construção do psiquismo do bebê a partir dos vínculos primordiais”.

A partir da combinação entre as experiências com a teoria psicanalítica, a clínica, o olhar artístico e o acompanhamento de partos, Cláudia e Nathalie desenvolveram o projeto Palavras para o nascer.

Cláudia Grisi Mouraria é psicóloga e psicanalista.

Com graduação e mestrado pela Universidade de São Paulo, atua na área clínica, estuda o desenvolvimento infantil e a clínica psicanalítica da primeira infância e já atuou como professora de psicologia na UNIP e na Faceres.

Coordena grupos de estudo sobre a constituição do psiquismo do bebê e também é membro do grupo Cultura Psicanalítica de São José do Rio Preto.

Nathalie Gingold é fotógrafa, artista plástica e doula.

Seu trabalho sempre esteve relacionado com a personalidade da mulher e a visão artística da beleza. Em 2011, recebeu o prêmio Nelson Seixas pelo projeto fotográfico “Musas de Si”, e em 2019 por “O poder do nascer: a história do nascimento é feminina”.

Fez diversas exposições em São José do Rio Preto e em São Paulo. Foi uma das primeiras doulas de São José do Rio Preto e desde 2014 atua como doula e fotógrafa de partos. Além disso, conduz rodas de gestantes e rodas voluntárias por meio do instituto As Valquírias na periferia de São José do Rio Preto.

Mãegrafia

É uma oficina prática que envolve fotografia, a mãe e seu bebê. Direcionada a mães com bebês de até 9 meses, desenvolvida especificamente para este projeto e feita de forma totalmente online por conta da pandemia de covid19. Ela tem como inspiração a técnica fotográfica denominada “Almografia”.

A palavra fotografia vem do termo grego phosgraphein, formado pela junção das palavras phos ou photo (que significa luz) e graphein (que significa marcar, desenhar ou registrar). A almografia fotografa um sentimento expresso pelo olhar da pessoa, algo dito sem palavras, na busca de registrar algo que nos emociona. Fazendo um jogo de palavras com a fotografia e permitindo o desenhar com a alma, desenhar com o invisível.

Desse modo, o presente workshop fotográfico tem como objetivo favorecer e registrar o elo entre mãe-bebê, através da captura de um “estado de presença”. Pelo fato do vínculo ser invisível precisamos de representações por onde ele possa se expressar ou presentificar-se. Assim, a fotografia será o meio escolhido para marcar, registrar ou desenhar essa luz afetiva.

Agradecimento

Primeiramente, agradecemos à Prefeitura de São José do Rio Preto (SP), pelo prêmio Nelson Seixas de incentivo à cultura, que permitiu que pudéssemos, da melhor forma, contribuir, organizar e formatar este projeto que envolveu tremendo esforço. E não apenas pelo tema de profunda complexidade, mas também por conta das mudanças ocorridas devido à pandemia de covid 19, contexto no qual a Prefeitura continuou a apoiar o nosso trabalho.

Também gostaríamos de agradecer carinhosamente a todos que estiveram ao nosso lado (mesmo que virtualmente) nestes últimos meses, buscando da melhor forma, auxiliar, organizar e melhorar este projeto.

Agradecemos também aos nossos parceiros de trabalho, cada qual com suas atribuições e delicadezas:

a Boni e Peixe Assessoria de Imprensa, nas figuras de Fernanda Peixe, Ricardo Boni e João Vitor Boni, pela organização e empenho na divulgação e comunicação na imprensa;

a Coven Comunicação, nas figuras de Diego Versali e Reider Pereira, pelo delicado e sensível trabalho de produção de logo, diagramação visual do site e comunicação em mídias sociais;

a Camila Werner, editora de texto, por trabalho tão detalhado e eficiente, mesmo quando pedimos uma revisão em cima da hora;

a Gustavo Vilas Boas, da produção do site, por sempre atender às nossas demandas de forma tão atenta;

a Julia Vanegas, pelo fornecimento de imagens de parto tão potentes e bonitas;

a Julieta Jerusalinsky, por dispensar seu valioso tempo e aguçado olhar com sua leitura carinhosa e atenta;

a Stephanie Galvão, Angélica Ventura, Mariana Moro, Lidiane Carreta, Daniela Nardini, Vanessa Girardi e Raquel de Oliveira, que autorizaram a exposição de suas fotos, permitindo que pudéssemos compartilhar com outras mães e profissionais processos tão íntimos de suas famílias;

a todas as mulheres que participaram dos workshops “Mãegrafia”, Jenifer M. Reche, Renata de Oliveira Menezes, Fernanda Ribeiro, Stefany Caroline, Aline S.Torricelli e Ana Letícia Silvares que se dispuseram a partilha de seu tempo, disposição e autorizaram a exposição de suas fotos.

São José do Rio Preto, SP, 20 de Novembro de 2020
Nathalie Gingold e Cláudia Grisi Mouraria

Ref. Bibliográficas e Notas

DOLTO, F. Quando surge a criança. Campinas: Papirus, 1996.

FREUD. S. O Ego e o Id e outros Trabalhos. Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago (1923 - 2006)

JERUSALINSKY, A. Saber Falar – Como se adquire a língua? 2ª edição. Petrópolis: Vozes, 2008

JERUSALINSKY, J. Enquanto o Futuro não vem - A psicanálise na clínica interdisciplinar com bebês. 3ª edição. Coleção de calças curtas. Salvador: Ágalma, 2002.

JERUSALINSKY, J. A criação da criança - Brincar, gozo e fala entre mãe e o bebê. Coleção de calças curtas. 2ª edição. Salvador: Ágalma, 2014.

LAZNIK, M. C. A voz da Sereia - O autismo e os impasses na constituição do sujeito. Coleção de calças curtas. Salvador: Ágalma, 2013.

MOURARIA, C. G. Um corpo: a queixa muda da anoréxica. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, USP. Ribeirão Preto, 2005.

PARLATO-OLIVEIRA, E. Saberes do Bebê. São Paulo: Instituto Langage, 2019.

SZEJER, M. Palavras para nascer - A escuta psicanalítica na maternidade. São Paulo: Editora Casa do Psicólogo, 1999.



1. SZEJER. P. 118.

2. SZEJER. P. 133.

3. DOLTO. P. 14

4. JERUSALINSKY J. (2014). P. 15.

5. MOURARIA. P. 7-8.

6. LAZNIK. P. 40.

7. LAZNIK. P. 146.

8. JERUSALINSKY J. (2014). P. 69.

9. JERUSALINSKY J. (2002). P. 230.

10. JERUSALINSKY J. (2014). P. 69.

11. JERUSALINSKY J. (2014). P. 68

12. PARLATO-OLIVEIRA (20019). P. 63

13. FREUD. P. 39.

14. JERUSALINSKY J. (2014) P. 70.

15. JERUSALINSKY J. (2014) P. 70.

16. SZEJER. P. 46.

17. JERUSALINSKY A. (2008) P. 80